quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Episódio VII



AVISO: este texto NÃO apresenta spoilers, pelo simples motivo que eu ainda NÃO assisti o Episódio VII - podem ler sem medo ;-)
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A essa altura, só quem passou os últimos 40 anos debaixo de uma pedra naquele deserto que os árabes chamam de Quadrante Vazio não conhece mesmo que minimamente a saga de Star Wars, então não vou perder tempo explicando o básico: seis (agora sete) filmes, personagens icônicos, trilha sonora épica, um impacto na cultura pop sem igual...tudo isto, para coroar, embebido de doses generosas do chamado monomito de Joseph Campbell, a arquetípica Jornada do Herói. Sim, George Lucas declarou explicitamente sua dívida com Campbell, mas até que ponto essa superestrutura narrativa, como toda boa lenda, criou vida e dominou os temas nos roteiros das duas trilogias, é o que vamos explorar agora.
Quando, depois de décadas, Lucas finalmente iniciou a segunda trilogia (cronologicamente a primeira), cumprindo o plano revelado ao mundo por ocasião do Episódio V, O Império Contra-Ataca, eu notei coisas no Episódio I que pareciam familiares, mas a certeza só veio com o Episódio II - cada trilogia é espelhada nas outras de modo sistemático, os temas específicos de cada episódio são subordinados à estrutura relativa à posição do mesmo dentro de sua trilogia; parece complicado dito assim, mas me acompanhem:

-Episódio de Abertura (I, IV): vemos o jovem e impetuoso Herói (Anakin, Luke), sua origem humilde, seus anseios por algo mais, seu chamado pelo Iniciador (Qui-Gon Jinn, Obi-Wan Kenobi), os encontros e confrontos com o Mal (Darth Maul, Darth Vader), o sacrifício do Iniciador, o teste decisivo dos dons do Herói, a solene celebração de sua vitória.

-Episódio de Desenvolvimento (II, V): a vitória é fugaz, o Mal revida e cresce, o Herói é tentado pela sombra (Anakin por Dooku, Luke por Darth Vader) e quase cede, mas recua no último instante, com cicatrizes do confronto (a perda da mão em ambos os casos) como recordação e advertência.

-Episódio de Conclusão (III, VI): o Herói vê o conflito crescer e ameaçar aos seus (Anakin e Padme, Luke e Leia) e, no auge da conflagração final, abraça seu destino (queda ou vitória), encerrando o estado anterior das coisas para dar vez a um novo estado (República para Império, Império para República).

Como disse acima, eu não assisti ainda ao Despertar da Força, mas as críticas que li e os comentários daqueles amigos que estiveram anteontem na pré-estréia, que falam de "homenagem" e "repetição", só me fazem crer que o Mito está se repetindo na sequência prevista e que o Episódio VII espelha o I e o IV, com novos personagens seguindo a trilha arquetípica aberta pelos antigos, ou, na frase clássica de Battlestar Galactica, "tudo isto já ocorreu antes, e tudo isto ocorrerá de novo".
Mas então, dirão vocês, não há esperança?
O Mito não é uma repetição exata, inflexível e estática, mas sim um padrão que dá espaço para a liberdade e criatividade de cada personagem interpretar sua parte dentro dos limites que lhe cabem: em termos Druídicos, o dán de cada um interage com o de todos na harmonia da Grande Canção, e nessa mistura da contingência e da Inspiração não faz sentido falar de predestinação e livre arbítrio - como já vimos, o Bardo é livre para variar detalhes e formas em cada história tradicional como julgar melhor, mas a história em si é uma entidade viva e com uma surpreendente vontade própria, que só aceita ser mudada até certo ponto, se revolta, e retorna ao padrão no qual se sente mais ela mesma.
E onde estamos nós em nossas trilogias pessoais, que escolhas fizemos, que novas escolhas decorrentes dessas nos esperam virando a esquina do futuro?
Neste fim de ano, talvez seja tempo de pensar nestas coisas.
Que a Força esteja com todos nós.

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