segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Endovélico, Semana 10: Oferendas

Esta é uma das semanas em que eu poderia falar do tema em um parágrafo e o resto seria para encher linguiça, mas o tema parte de pressupostos e leva a consequências que merecem uma discussão mais extensa.
Começando pela questão mais imediata: porque fazemos oferendas de comidas e outros itens materiais aos Deuses, isso não é primitivo demais? Essa pergunta é bastante comum, não só fora das fés pagãs como no seio delas, e para responder a isso seria bom olharmos a sequência das versões da Liturgia da ADF -- no início a ênfase era em oferendas imateriais, geralmente música, canto ou poesia, sendo a resposta emocional dos participantes do rito às performances dos ofertantes parte essencial da oferenda, mas com o tempo a prioridade passou às oferendas materiais, e a declaração de membros da ADF a respeito mencionava várias razões para essa escolha: um afastamento deliberado da "imaterialidade" associada à espiritualidade judaico-cristã, antecedentes históricos e arqueológicos de oferendas em rios e lagos, e uma declaração enfática do valor intrínseco e sacralidade do mundo material e tudo o que ele contém. Claro, não é a substância material em si que Deuses, Ancestrais e Espíritos da Natureza levam da oferenda, mas a sua contraparte anímico-energética, juntamente com a devoção associada ao ato físico da oferenda.
A outra pergunta que surge desta é a seguinte: os Deuses necessitam receber oferendas, há uma carência neles que a oferenda preenche? Se assim fosse, eles teriam todos perecido quando seus cultos foram terminados pelo monoteísmo predatório, o que não foi em absoluto o que ocorreu, como qualquer politeísta moderno pode confirmar -- a função da oferenda é exatamente a mesma de uma ou mais pizzas numa mesa cheia de amigos: uma troca de energia e presentes, um reforço dos laços de amizade, um pretexto para os participantes desses laços sentarem juntos em alegria. Nós não a vemos como um dízimo a ser pago, ou pior, como um jeito de comprar o favor divino e forçá-lo a acontecer em troca do que foi ofertado, como tantas igrejas modernas blasfemamente afirmam a seus rebanhos.
Quando ofereço folhas de louro, uvas, pão preto, vinho ou carne de porco a Endovélico, eu o faço em sinal de gratidão pelas boas coisas da minha vida, que não são poucas, com oferendas especiais a cada nove dias da minha semana ritual (ontem, dia da I Conferência Paulista de Druidismo e RC, foi um desses dias), sem me sentir aviltado ao pagar tributo nem aviltar meu padroeiro ao comprá-lo com minhas ofertas, mas como companheiros partilhando um banquete: "tome, é todo seu".


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