quarta-feira, 19 de abril de 2017

Nativos


Hoje, 19 de Abril, é o Dia do Índio, e as postagens nas redes sociais se dividem entre as que comemoram a data e os que lamentam o que foi feito à população indígena no meio milênio passado; mas eu meditei a respeito e me ocorreram certas idéias que quero partilhar agora.
Nós os chamamos de "nativos", os que nasceram aqui, e "indígenas", os deste local, e não usamos estes termos para nós mesmos, nem se formos a sétima geração nascida no Brasil, porque sabemos no fundo que nossas tribos vieram de longe, Europa, África e Ásia: em algum ponto perdido no passado nossos antepassados também foram nativos de uma terra, indígenas daquele lugar, com o mesmo relacionamento com seu solo-mãe que os índios daqui tem com esta terra. Não é demais repisar isso: os Romanos olharam os nossos ancestrais Celtas, Germanos, Eslavos e outros povos "nativos" do mesmo modo que os "descobridores" europeus olharam os indígenas aqui, como selvagens incultos a conquistar e por a seu serviço ou criaturas a serem aculturadas e integradas à civilização verdadeira (...)
Nesta terra miscigenada e pan-cultural, somos os descendentes na diáspora de várias tribos nativas, sem sequer saber de todas elas ou dos solos sagrados que lhes deram origem, e eu ouso dizer que, por detrás do preconceito que muitos ainda tem contra os índios, se esconde uma imensa e amarga inveja inconsciente, porque eles, "primitivos" como aparentam ser, tem esse tesouro da conexão ancestral com a terra natal que nos foi negado (e há tanto tempo que nem sequer tivemos consciência da perda).
Deveríamos ser capazes de respeitar e zelar pelos nossos povos nativos simplesmente por eles serem humanos como nós, de sangue igualmente vermelho, mas se essa empatia básica ainda for difícil de evocar, talvez pensar que, na noite dos tempos, nossos ancestrais deviam ser bem parecidos com eles ajude a fazer nascer esse senso de responsabilidade e solidariedade tão necessário em nossos tempos.

quinta-feira, 2 de março de 2017

A Verdade Contra o Mundo


Essa frase faz parte da tradição Bárdica de Gales, conforme descrita por Iolo Morganwg no Barddas, uma exortação a afirmar o que é certo mesmo que o mundo inteiro seja contra –não é irônico que isso faça parte do que é considerada uma das maiores imposturas da história da literatura? A essa altura até as pedras do fundo do riacho sabem que Iolo não se furtou a preencher as muitas lacunas de seu trabalho de pesquisa da tradição céltica de Gales com textos de sua própria criação, e com uma costura tão bem feita que não dá pra distinguir o forjado do autêntico...e no entanto não foi exatamente uma mentira, podemos dizer que ele, durante seu surto de Inspiração poética, estava agindo como um Bardo antigo o faria, e portanto sua criação é válida mesmo que não autêntica.
A ênfase quase obsessiva com a verdade está presente desde os primórdios da tradição Celta, certamente herdada dos seus antecessores culturais, os Proto-Indo-Europeus: a ilustração acima evoca o lendário cálice de quatro lados que o deus Manannán deu ao rei Cormac, e que se partia em pedaços se uma mentira fosse dita diante dele, mas se reconstituía como novo se três verdades fossem proclamadas do mesmo modo – um perfeito detector de mentiras, e um instrumento valioso para um rei em seu papel de juiz.
Havia até mesmo uma expressão, firínne flátha, “a verdade/justiça do regente”, que expressa uma verdade de ordem ritual/cosmológica: se o rei, o ponto de equilíbrio entre Tribo e Terra, este mundo e o Outro-Mundo, entre Cáu, Mar e Terra, é saudável de corpo e espírito, e essa saúde se manifesta como a harmonia entre o que ele diz e como as coisas são, o reino permanece harmônico, mas se ele falha ao manter a Verdade o reino malogra – lemos que o rei Lugaid proferiu um juízo falso e metade do salão real desabou, incluindo a colina onde estava assentado, mas imediatamente o jovem Cormac mac Art pronunciou o juízo verdadeiro e salão & colina foram miraculosamente restaurados.
A função jurídico-legal é partilhada entre reis e Druidas, que são “como dois rins na mesma besta”, e sabemos que Druidas como Cathbad do Ulster são consultados a todo momento sobre a verdade de uma situação, ou a verdade do que virá a ser, e a divinação é um meio auxiliar da razão e da memória freqüentemente utilizado; mas todas as classes tem um compromisso, fundamentado na honra e na imagem pessoal, com a Verdade: como Oisín disse a são Patrício, os Irlandeses se sustentavam “pela verdade de nossos corações, pela força de nossos braços, pela palavra cumprida em nossas línguas”.
Mas, e hoje?
Depois que o Pós-Modernismo declarou que não existe uma verdade objetiva e absoluta, e que todos os pontos de vista sob qualquer tema são igualmente válidos, chegamos recentemente ao abismo da “pós-verdade”, onde notícias deliberadamente falsas disputam espaço midiático e atenção com as verdadeiras e usurpam seu lugar, e poucos são os que tem o discernimento de examinar com cuidado cada uma antes de lhe dar crédito; a Mentira, antes abominada por virtualmente todas as civilizações antigas, foi entronizada, e já nem precisa se disfarçar de Verdade para obter admiração, e as pessoas não percebem que bem mais que um salão real está desabando sobre suas cabeças em decorrência disto.
Aqueles de nós que ainda nos apegamos aos modos originais de ser continuamos devotos da Verdade, cultivando-a em nossas vidas, família, amigos, trabalho, diante dos Deuses, Ancestrais e Espíritos e, o mais difícil, sozinhos conosco mesmos...e faz parte de nossa vocação sustentar a excelência da Verdade sobre a Mentira, lembrar as pessoas quais são as conseqüências da falsidade no indivíduo e na sociedade, e proclamar a Verdade ainda que contra o Mundo, sabendo que seu tempo voltará um dia.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Testemunhas


Quem já assistiu ao recém-estreado Animais Fantásticos e Onde Habitam voltou a se expor (ou o fez pela primeira vez) ao universo reripótico e à magia ali encerrada -- mas o que me atraiu a atenção foi o personagem do Jacob Kowalski, o sujeito comum que, ao esbarrar no bruxo/naturalista Newt Scamander, inadvertidamente cruzou o limiar para um aspecto do mundo que poucos conhecem, e acabou completamente fascinado por ele:
"Não, isto não é imaginação minha, sabe, eu não tenho cabeça pra criar coisas como essas"
O que acontece com o sr. Kowalski eu não vou contar, quem quiser que vá ver o filme -- mas o que tenho a dizer é que ele é a mais recente encarnação de um arquétipo fundamental nas histórias de fantasia, o Homem Comum que participa da jornada do Herói e que volta pra contar aos outros aquilo de que se tornou testemunha, e é sobre ele e sua importância que vamos conversar agora.
O exemplo que me vem como sendo o mais antigo é o de Bors, um dos Cavaleiros da Távola Redonda, e um dos três a encontrar o Graal na cidade sagrada de Sarras: quando Galahad é arrebatado em êxtase e cai morto aos pés do Graal, e Percival é iniciado na Companhia do Graal e se torna seu protetor, é a Bors, o mais velho dos três (e o único casado e com filhos), que recai a tarefa de voltar a Camelot e narrar a Artur e à Távola o que testemunhou (e é graças a isso que a história chegou até nós).
No ciclo de Tolkien, temos o heroísmo visível dos guerreiros de Minas Tirith e Rohan contra Sauron e seu exército das trevas, e o menos visível de Frodo em sua jornada de auto-sacrifício para destruir o Anel antes que ele o destrua: mas quem leu direito os livros sabe muito bem que é Sam o verdadeiro centro da história, é pelos olhos arrebatados dele que vemos as maravilhas de Rivendell e Lothlórien e os terrores de Moria e Cirith Ungol, e é ele, que fez a jornada movido apenas pela lealdade, que fica para trás quando os outros seguem para o Oeste além do Mar, para cuidar de sua família, filhos e jardins, e escrever o que viu para preservar a Grande História do fim da Terceira Era.
Dito assim, até parece fácil, não? Basta aguentar até o fim, tentar não morrer no meio do caminho, e você vira o sobrevivente/testemunha, pronto para a fama e a felicidade -- mas existe um risco, algo gravíssimo, pior que a morte, no caminho do candidato a testemunha, e o exemplo clássico está nas crônicas de Nárnia: quem vê Susan, uma das quatro crianças que cruzou o armário para o outro lado, chorando com Lucy a morte de Aslan, ou usando seu arco e flechas na batalha contra a Rainha do Gelo, e por fim se tornando uma rainha em Cair Paravel, mal pode acreditar quando lê, no fim do último livro, a declaração seca e amarga de Peter: "nossa irmã Susan já não é mais uma amiga de Nárnia". O que aconteceu? O pior dos pecados: ela cresceu e se permitiu esquecer tudo o que viu e viveu, a ponto de achar "fofo" que seus irmãos, mesmo crescidos, ainda se lembrem das "brincadeiras" de Nárnia da infância...
Mas isto será possível, dá pra ver uma maravilha do Outro Mundo e chegar a se esquecer dela?
Não é preciso ir muito longe, basta ver o que acontece com os sonhos: quantas vezes você acordou com um sonho absolutamente fantástico que se desintegrou diante dos olhos da mente à medida que a consciência diurna da Alma Oceânica assumia o controle? Nossa percepção, linguagem e filtros culturais nos programam para deixar de lado tudo o que não se conforma à narrativa-padrão, e parte do objetivo de uma Iniciação bem-feita é não apenas dar acesso ao Outro Mundo, mas também treinar a mente a assimilá-lo e integrar devidamente o que foi visto à consciência.
Mas, mais importante que o treinamento, uma certa estrutura de caráter se faz necessária: nos apêndices do Senhor dos Anéis, lemos que Gandalf, após explorar a Terra-Média, começou a estudar os hobbits meio que por curiosidade, e foi ele quem descobriu o grande segredo oculto na natureza hobbítica: aqueles sujeitinhos folgazões, adeptos de boa comida e bebida, camas macias, canções e erva-de-cachimbo, escondiam dentro de si uma resistência inquebrantável que podia, se necessário, permitir a eles passarem sem todos esses pequenos e grandes confortos e suportarem o que fosse preciso enquanto fosse necessário – ele testou algumas famílias hobbits, meio como Mendel fazendo experimentos com ervilhas, até chegar, com Bilbo, à certeza de que sua hipótese estava certa, e isso guiou seus planos para a Terra-Média a partir de então.
E onde nós entramos nisso?
A maioria das pessoas que vem ao Druidismo (ou, como já vimos, que se reconhecem nele) teve uma ou mais experiências do tipo inexplicável, em graus maiores ou menores de maravilhamento, e a exposição às práticas, cerimônias, meditações e histórias abre os portais da Inspiração para eventos ainda maiores; talvez apenas poucos de nós sejamos chamados para os papéis mais heróicos, mas todos nós podemos, ao menos, aspirar a essa mistura de solidez interna e abertura externa que caracteriza as Testemunhas e lhes dá o poder de dedicar suas vidas a passar para a frente o que testemunharam e aprenderam.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O Novíssimo Testamento

"Deus é um tirano, que criou a humanidade para se divertir atormentando-a sem cessar"
(Clichê. Lugar-comum. Conte outra)
"Deus mora em Bruxelas, é um desmazelado rabugento de roupão & pijama que controla a criação via computador"
(Quêêê, como assim???)
"Deus é um grosseirão sempre mal-humorado, que tiraniza a esposa, nutre ressentimento pelo filho que saiu de casa, e maltrata a filha de 10 anos, que não o suporta mais"
(???!!!???)
"Deus acorda um dia para descobrir que a filha fugiu para o mundo, mandou SMS para todas as pessoas informando exatamente quanto tempo terão de vida, e está recrutando novos apóstolos para escrever o Novíssimo Testamento e refazer o mundo numa versão melhorada"
(.......colapso total.........)
É a reação de quem for ao cinema despreparado para a obra de Jaco van Dormael, o diretor belga a quem a Inspiração tocou de modo tão fulminante - não consigo imaginar o público evangélico assistindo isso sem que suas cabeças explodam de tanta heresia junta...
A premissa central do filme é interessantíssima: como o próprio Deus diz em certa altura, as pessoas se apegam a ele e tentam não desobedecê-lo porque não sabem quando e como vão morrer, então a revelação deste dado crucial acaba libertando-as desse jugo - já que vão morrer numa data prefixada, e não há o que fazer para mudar isso, porque não assumir o controle de suas vidas e escolher livremente o que fazer com o tempo que lhes resta?
O filme se detém nas vidas dos seis escolhidos por Ea, a filha de Deus, para serem os novos apóstolos: vidas tristes e vazias, e no entanto narradas com tanta sensibilidade e compaixão (um deles é "o Assassino" e outro "o Tarado", mas não há como deixar de amá-los depois de os conhecer de perto) que acabam por quase eclipsar o fundo sobrenatural do filme, e é pelo olhar de Ea que essa sensibilidade se expressa.
Deus, pelo contrário, não tem nenhum traço que o redima - indo ao mundo atrás da filha extraviada, trata tudo e todos como o pequeno tirano doméstico que realmente é, e obviamente o mundo e as pessoas retribuem à altura: todas as mesquinhas leis criadas por ele mesmo para atormentar os humanos voltam-se contra ele sem dó, ele sente na carne o que significa ser humano no mundo distópico que criou (exatamente como seu filho rebelde, JC, que por isso mesmo rompeu com o pai), mas não aprende nada com isso.
O segredo do filme, no entanto, está na submissa esposa de Deus: ela tem um passado, e no ponto crítico da história é ela quem faz o que precisa ser feito (os Pagãos que assistirem vão adorar!)
Não sei se foi de propósito, mas essa comédia belga despretensiosa acaba sendo, para quem tem olhos-de-Druida, um retrato extremamente acurado do panorama religioso contemporâneo, e só por isso já merece ser sucesso de público.
E tem Catherine Deneuve.
VÃO VER!!!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Sombra


Já brincaram de fazer sombras à luz de uma vela, naqueles dias chatos em que a rede elétrica falha e a casa entra nas trevas? Supondo que a maioria disse "sim", quem de vocês já procurou na parede a sombra, não da vela, mas da própria chama? Quem usou uma vela para iluminar outra e conseguiu ver um tremular translúcido projetado na parede à volta do pavio?
Tem muita gente, que as redes sociais só tornaram mais visível e dotada de voz, que fala e age como se fosse feita só de "paz e luz" (a senha secreta que os identifica, junto com "gratidão", "gratiluz" e outros bordões similares), gente altamente espiritualizada que quase não toca o chão sob seus alvos pés, e que só desperta de sua beatitude nirvânica para acusar os outros de serem imperfeitos, violentos, carnívoros carniceiros, não-despertos, e outros epítetos desairosos que caem muito mal nos melífluos lábios dessa gente iluminada - em termos junguianos, eles estão em negação total da Sombra, o lado obscuro de todo mundo, recusando-se a verem a si mesmos como sendo feitos de algo que não seja puramente Luz; mas, como vimos acima, se até mesmo o fogo, fonte da luz, não está isento de ter uma sombra, porque estas santas pessoas acham que são exceção?
E se fosse só esse o problema, a presunção cega dessa gente, isso já seria ruim o bastante; mas a maioria desses quase-anjos só consegue se ver assim às custas de projetar a Sombra para fora de si, no mundo e nas pessoas à sua volta, as quais passam a encarnar a escuridão que eles não conseguem admitir em si mesmos - essa tendência acaba "infectando" mesmo as pessoas com uma visão menos exaltada de si, e basta ficar cinco minutos em qualquer discussão política, religiosa, esportiva, social ou sexual para ver cada lado demonizar o outro e se arrogar como o único de posse da razão e da justiça, Sombras rejeitadas atacando ferozmente outras Sombras deserdadas...
Minha posição a respeito? Quem acompanhou as 30 Semanas para Endovélico viu que Ele não apenas transita entre opostos (Vida/Morte, saúde/doença, sono/vigília) mas que ele responde à oposição acrescentando um terceiro termo (Caminho, cura, sonho) que vai além do pensamento binário e reintegra os opostos antes irreconciliáveis.
Quem assistiu The Dark Crystal tem na cena final, a reunificação dos Skeksis e os urRu na unidade original dos urSkeks, a mais perfeita imagem do processo:



a Sombra, originalmente rejeitada ao ponto da projeção como sendo Outra, não é destruída como se esperaria, mas sim reintegrada ao Todo do qual sempre fez parte.
Pra essa gente que tem horror da Escuridão, meu desafio: tentem dormir de luz acesa por 1 semana, e vejam se já na terceira noite não estão prontos a recebê-la de braços abertos, entendendo melhor seu lugar na ordem das coisas e tentem, se puderem, extrapolar o exemplo da escuridão exterior para a Escuridão interior.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Episódio VII



AVISO: este texto NÃO apresenta spoilers, pelo simples motivo que eu ainda NÃO assisti o Episódio VII - podem ler sem medo ;-)
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A essa altura, só quem passou os últimos 40 anos debaixo de uma pedra naquele deserto que os árabes chamam de Quadrante Vazio não conhece mesmo que minimamente a saga de Star Wars, então não vou perder tempo explicando o básico: seis (agora sete) filmes, personagens icônicos, trilha sonora épica, um impacto na cultura pop sem igual...tudo isto, para coroar, embebido de doses generosas do chamado monomito de Joseph Campbell, a arquetípica Jornada do Herói. Sim, George Lucas declarou explicitamente sua dívida com Campbell, mas até que ponto essa superestrutura narrativa, como toda boa lenda, criou vida e dominou os temas nos roteiros das duas trilogias, é o que vamos explorar agora.
Quando, depois de décadas, Lucas finalmente iniciou a segunda trilogia (cronologicamente a primeira), cumprindo o plano revelado ao mundo por ocasião do Episódio V, O Império Contra-Ataca, eu notei coisas no Episódio I que pareciam familiares, mas a certeza só veio com o Episódio II - cada trilogia é espelhada nas outras de modo sistemático, os temas específicos de cada episódio são subordinados à estrutura relativa à posição do mesmo dentro de sua trilogia; parece complicado dito assim, mas me acompanhem:

-Episódio de Abertura (I, IV): vemos o jovem e impetuoso Herói (Anakin, Luke), sua origem humilde, seus anseios por algo mais, seu chamado pelo Iniciador (Qui-Gon Jinn, Obi-Wan Kenobi), os encontros e confrontos com o Mal (Darth Maul, Darth Vader), o sacrifício do Iniciador, o teste decisivo dos dons do Herói, a solene celebração de sua vitória.

-Episódio de Desenvolvimento (II, V): a vitória é fugaz, o Mal revida e cresce, o Herói é tentado pela sombra (Anakin por Dooku, Luke por Darth Vader) e quase cede, mas recua no último instante, com cicatrizes do confronto (a perda da mão em ambos os casos) como recordação e advertência.

-Episódio de Conclusão (III, VI): o Herói vê o conflito crescer e ameaçar aos seus (Anakin e Padme, Luke e Leia) e, no auge da conflagração final, abraça seu destino (queda ou vitória), encerrando o estado anterior das coisas para dar vez a um novo estado (República para Império, Império para República).

Como disse acima, eu não assisti ainda ao Despertar da Força, mas as críticas que li e os comentários daqueles amigos que estiveram anteontem na pré-estréia, que falam de "homenagem" e "repetição", só me fazem crer que o Mito está se repetindo na sequência prevista e que o Episódio VII espelha o I e o IV, com novos personagens seguindo a trilha arquetípica aberta pelos antigos, ou, na frase clássica de Battlestar Galactica, "tudo isto já ocorreu antes, e tudo isto ocorrerá de novo".
Mas então, dirão vocês, não há esperança?
O Mito não é uma repetição exata, inflexível e estática, mas sim um padrão que dá espaço para a liberdade e criatividade de cada personagem interpretar sua parte dentro dos limites que lhe cabem: em termos Druídicos, o dán de cada um interage com o de todos na harmonia da Grande Canção, e nessa mistura da contingência e da Inspiração não faz sentido falar de predestinação e livre arbítrio - como já vimos, o Bardo é livre para variar detalhes e formas em cada história tradicional como julgar melhor, mas a história em si é uma entidade viva e com uma surpreendente vontade própria, que só aceita ser mudada até certo ponto, se revolta, e retorna ao padrão no qual se sente mais ela mesma.
E onde estamos nós em nossas trilogias pessoais, que escolhas fizemos, que novas escolhas decorrentes dessas nos esperam virando a esquina do futuro?
Neste fim de ano, talvez seja tempo de pensar nestas coisas.
Que a Força esteja com todos nós.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Obrigações


Muita gente vai atrás das religiões pagãs atraída pelo que parece um caminho de liberdade irrestrita, diferentemente dos dogmas e mandamentos das crenças mais convencionais - a frase da Wicca "se não causar mal a ninguém, faça o que quiser" é o irresistível canto da sereia para essas pessoas - mas já vimos em postagens anteriores que há códigos éticos muito claros em todas essas religiões, incluindo o Druidismo, não existe isso de vale-tudo irrestrito; depois do choque que essa revelação traz aos mais deslumbrados, mesmo aqueles que conseguem absorvê-la sem abandonar decepcionados o caminho acabam perplexos diante do mistério dos geasa.
Geasa (singular geis) é o termo Irlandês para certas compulsões ritualmente impostas, seja na forma de atos proibidos ou obrigatórios, e que devem ser seguidas à risca sob pena de ruína pessoal ou catástrofe: o exemplo clássico é o de Cuchulainn, o herói do Ulster, que está sob os geasa de não poder comer carne de cão (o seu animal tutelar) e ter de aceitar qualquer comida oferecida por uma mulher, e tem seu destino selado quando três velhas no caminho oferecem a ele cozido de lontra (que em Irlandês é literalmente o "cão das águas"), ou seja, ele é forçado a escolher qual geis violar para cumprir o outro; guerreiros como ele podem ter dois ou mais geasa, mas os reis estão sob dúzias deles ao mesmo tempo, e assim a probabilidade de conflito insolúvel aumenta exponencialmente. Mas então, dirão vocês, qual é o propósito disso, senão uma armadilha que vai arruinar sua vítima mais cedo ou mais tarde?
Maria Nazareth Alvim Barros, autora de Uma Luz sobre Avallon, considera que os geasa servem como mecanismos de controle social sobre aqueles indivíduos ou classes sociais mais poderosos (reis) ou potencialmente perigosos (guerreiros), restringindo seu poder para o bem da tribo, mas logo à frente ela diz que os Druidas não estão sujeitos a nenhum geis - mas se eles são a classe suprema da sociedade Celta, se nem mesmo o rei pode falar em assembléia antes que o Druida se pronuncie, não deveriam eles ser restringidos por centenas de geasa, ou talvez um ou dois particularmente restritivos, segundo este raciocínio? Nenhum relato descreve algum Druida sob geasa, é verdade, mas ausência de evidência é o mesmo que evidência de ausência? Minha teoria é que os Druidas tem um ou mais geasa, sim, mas diferentemente de guerreiros ou reis tais injunções são mantidas em segredo absoluto, e por isso não foram registradas nas histórias: tanto os geasa druídicos quanto o sigilo sobre os mesmos tem um motivo de ser, e é isso que vamos tentar descobrir aqui.
Primeiro, como uma pessoa adquire geasa? A maioria aparentemente vem desde o nascimento, e é revelada ao indivíduo por divinação druídica, possivelmente fazendo parte do dán desse indivíduo e até mesmo sendo essencial para o seu cumprimento; outros são impostos por Druidas, Divindades, Ancestrais ou Espíritos, seja como maldições ou desafios a serem superados; outros, enfim, viriam com a definição social do indivíduo, como o ingresso num bando guerreiro ou a coroação do rei. Todos estes casos tem exemplos atestados nas histórias, mas eu quero postular para os Druidas a assunção voluntária de geasa, como parte da sua iniciação ou relativos a trabalhos específicos (e neste caso talvez eles seriam temporários, terminando com o trabalho cumprido).
Segundo, qual é o mecanismo dos geasa, e do possível segredo sobre eles? Aqui eu vou apelar para duas fontes, uma ficcional, outra mágica, que me parecem relevantes e plausíveis.
Marion Zimmer Bradley (sim, a das Brumas de Avalon) era uma autora de fantasia extremamente prolífica, e em um de seus livros, Lythande (existe em português, mas fora de catálogo há anos), ela fala do Templo da Estrela Azul, uma ordem/escola de magos onde na iniciação final, quando o aprendiz finalmente recebe a marca da Estrela Azul na testa e o poder a ela vinculado, esse poder é selado por um segredo, conhecido apenas pelo Mago e pelo Mestre do Templo, e que ninguém mais pode conhecer: se alguém descobrir e falar esse segredo em voz alta, o Mago perde permanentemente seu poder, e segundo Bradley é a tensão psíquica do segredo guardado que mantém o poder do Mago acumulado e selado dentro dele, como o grão de areia na ostra que forma a pérola (procurem o livro, é muito legal!)
Ian Corrigan, Druida da ADF, um dos mais originais e criativos magos do nosso tempo, ao falar sobre sacrifícios/oferendas neste podcast, teorizando sobre o mecanismo implicado no ato da oferenda, menciona que "(...) os Espíritos parecem totalmente fascinados quando nos privamos de algo (...)" - como seres imateriais que são, muitos deles jamais tendo encarnado no mundo material, eles não concebem que um ser material pode carecer, voluntária ou involuntariamente, de comida, abrigo, ou seja lá o que for, porque no Outro-Mundo o desejo é satisfeito assim que surge; o que valeria na oferenda, assim, não seria a coisa ofertada em si mesma ou a emoção devocional do presentear, mas o ato de se privar voluntariamente de algo de valor - segundo Corrigan, isso é que atrairia a atenção e a curiosidade dos Espíritos, que compensariam essa carência voluntariamente assumida com bênçãos espirituais e materiais; quanto mais "sacrifício" houvesse na oferenda, maior seria o poder investido no ato, e mais garantida seria a resposta ao mesmo.
Juntando ambos os postulados, o que obtemos? O geis é uma privação mais ou menos severa da liberdade do indivíduo, e isso por si só já geraria uma resposta favorável do Outro-Mundo, que retiraria sua bênção com a violação do geis e a cessação da privação; se esse geis estiver sob sigilo, a tensão psíquica ampliaria o poder investido e a resposta ao mesmo.
Na prática, como usar essa teoria? Não é sensato fazer votos a torto e a direito sem pensar muito bem, e por muito tempo, se isso é adequado ou não - muita meditação, aconselhamento com gente sábia (incluindo divinação extensiva sobre o alcance, riscos e adequação do ato) são preparações recomendadas antes de assumir um geis (e eu aconselharia fazer os primeiros geasa de curta duração, talvez uma lunação no máximo, e só um de cada vez, para evitar conflitos); escreva no seu diário (como assim, você AINDA não tem um???) cuidadosamente o que você deseja, qual é o geis (positivo ou negativo) ao qual você vai se submeter, e o período exato da obrigação, faça oferendas às entidades guardiãs, ore às três Almas para estarem alinhadas neste propósito, e vá prestando muita atenção no período a eventos/presságios do dia-a-dia; se tudo correr bem, e o geis tiver sido mantido sem falhas, ao fim do período agradeça o auxílio obtido e declare oficialmente a obrigação encerrada. Se a Inspiração apontar, depois de alguns geasa temporários, que é hora de assumir um geis vitalício, confirme por divinação/meditação/aconselhamento a veracidade disso, faça o voto - e se prepare, porque com o aumento do poder interior decorrente do geas e do sigilo, novas responsabilidades surgirão no seu caminho, como partes do seu dán, e você terá que estar à altura delas...